segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

ainda, o Humberto Explica

Eu nunca tive coragem de fechar o blog. Passou a vontade de escrever, a vida ficou corrida, comecei a achar estúpido e desnecessário ficar comentando sobre o que fosse, e de repente me pareceu muito desinteressante a ideia de nego que eu nem sei quem (ou pior, nego que eu sei quem) lendo sobre minha vida. Mas, ainda assim, nunca tive coragem de fechar o blog.

Em parte por pesar. Porque não o fiz no auge, quando tinha trocentos leitores, que comentavam sempre, e quando seria a hora de parar. Em parte porque provavelmente não era a hora de parar.

Muito do lapso gigantesco sem escrever por aqui deveu-se a uma série de perdas que fez a vida ficar pesada. Perdas doloridas. Perdas de pessoas que eu amo, amo muito. Não queria escrever. Muito menos aqui.

O Humberto que escreve agora é muito, muito diferente do Humberto que criou este blog. Antes mesmo que meus amores partissem, muita coisa aconteceu e tudo isso me mudou/marcou muito. Se ainda tiver algum dos leitores antigos por aqui (se ainda tiver alguém lendo blog, ainda mais este, em 2016), certamente se lembrará do tipo de preocupação que eu tinha no começo (basicamente romance, gente, olha que bonitinho era essa criatura, sofria por amor). Tudo mudou.

Um belo dia (hoje, no caso), eu senti que quero voltar a escrever. Porque eu preciso. Nem que seja pra praticar. Não sei ainda sobre o que me apetecerá escrever. Não rola vontade de falar sobre o que eu passo ou vivo (fase meio Dietrich), não sei os "assuntos do momento" porque praticamente aboli televisão e portais de "notícias" da minha vida, não tenho bagagem pra falar de política, nem vejo em quê minha opinião ou meu ponto de vista sobre o que for acrescentaria alguma coisa nessa imensidão de gente palpitando sobre tudo que se tornou a internet. 

Mesmo assim, dá licença. Vou tentar retomar a frequência neste blog. Porque eu acho que ele merece. Porque eu quero. E porque, ainda que não saiba exatamente sobre o que, eu acredito que ainda mereço o prazer que escrever sempre foi pra mim. Teje reativado, O Humberto Explica.

Se alguém aí ler isso, aceito muito sugestão de pauta. Põe aí nos comentários, qualquer que seja o assunto. Se eu tiver (na verdade, se eu achar que tenho) o que dizer sobre ele, faço um post. Se eu não tiver o que dizer sobre o assunto, ainda melhor (porque vai valer como exercício, de redação, de perspectiva...).

É isto. Com sorte, dia sim, dia não, dia talvez, há de ter texto novo aqui. Até que chegue a hora de, definitivamente, fechar a bodega.

Um abraço.

domingo, 17 de maio de 2015

árvore da vida

Sempre achei caixão o horror. Um troço feio, medorrento, triste, apertado. Houve uma época, quando era mais novo, que meu avô cismou de vender alguns, daí, não bastando o fato de que ele morava na roça, numa casa onde jamais dormi por medo de assombração, ainda tinha mais aqueles caixões em pé na parede, pra deixar tudo com mais cara de filme trash de terror ainda. ACHO que eu nunca tive medo de morrer não, mas sei que eu sempre achei pavorosa a ideia do caixão.

Nessas, até um dado momento da minha adolescência, eu tinha por certo que queria ser cremado (ou caramelado) quando morresse. Isso durou até uma das aulas de literatura do Professor Éder Simões no Estadual Central. Numa daquelas aulas maravilhosas, onde, pela exposição de tudo de ruim que havia no mundo e nas pessoas, a vida passava a ser linda e ter sentido, ele falou sobre o quanto fazia parte da harmonia, da continuidade da vida, que dos corpos sob a terra nascesse mais vida e assim a energia e a luz continuassem. Naquele momento eu excluí qualquer possibilidade de ser cremado. Mas e o caixão? Aquela feiúra não atrapalharia a continuidade da vida?

Meses atrás, enquanto finalmente assistia "Six feet Under", (SUPER-HIPER-MEGA-SPOILER A SEGUIR), teve a coisa do pedido da Lisa de ser enterrada sem caixão (por conta da mesma ideia de vida que se refaz, natureza, bláblá), e eu me vi pensando de novo no assunto: como eu conseguiria permissão pra ser enterrado sem caixão? Será que já existe essa possibilidade? E se algum boçal cismasse de não respeitar meu desejo (não fazem isso comigo vivo, imagina desfalecido)?

Eis que hoje, agorinha há pouco, dei-me com a novidade: Os designers italianos Anna Citelli e Raoul Bretzel desenvolveram o projeto The Capsula Mundi (ilustrado na imagem que abre este post, aí acima). Basicamente, no lugar de ser enterrado num caixão, o corpo da pessoa que se foi seria colocado dentro de uma cápsula orgânica, onde depois é plantada uma árvore ou uma semente, para aproveitar a matéria orgânica. No lugar de cemitérios como conhecemos haveria então novas florestas. :)

Ainda é cedo pra saber se vai dar certo (e quero crer que ainda é cedo pra eu ir, apesar de a vida me cansar medonhamente às vezes -- OK, mais as pessoas que a vida), mas logo decidi que quero que plantem um pé de manga na minha cápsula. É uma árvore forte, que dá um fruto lindo, e me lembra as melhores memórias da infância (pendurado feito macaco nela, brincando de guerra de manguinhas quando elas começavam a nascer em dezembro, gangorrando, sonhando com uma casa na árvore). 

Já perdi o medo de caixão, já entendi que mesmo as pessoas que a gente mais ama se vão. Mas certamente tudo isso se tornaria menos pesado se, em algum momento, passasse a ser comum devolver à terra o que é dela, só que permitindo que nela a vida se transforme, e não que se dê por terminada. 

Eu adorei a ideia.